Opinião – Jornalismo, se eu pudesse escolher de novo seria você

Por Jornalista Guilherme Kalel

Informe Franca – 07/07/2020 | 7h

Desde muito cedo as pessoas sempre tem a preocupação de o que irão ser quando crescer.
Desde criança, os nossos pais fazem planos e falam sobre o que gostariam que fôssemos.
Os rumos que desejavam que tomássemos na vida.
Nem sempre esses rumos se concretizam, porque as vezes os sonhos dos pais não são os mesmos dos filhos.
Ou porque, as condições financeiras de algumas famílias e a desigualdade social no Brasil, ainda é muito grande não dando muitas oportunidades a quem mais precisa por mais que
se esforcem.

Eu sou um desses casos, de mudanças de rumos.
Quando pequeno minha mãe sempre dizia que eu falava que gostaria de ser advogado, depois Promotor e por fim Juiz.
Seguir o meio jurídico e estar no ápice de uma das profissões mais importantes do cenário atual.
De fato eu acho que até me identifico com parte dessas funções.
Fazer a Justiça, buscar mostrar a veracidade dos fatos e quem sabe como Juiz, fazer a diferença na vida e na sociedade.

Me lembro que tínhamos um grande contato com policiais aquela época, amigos de minha mãe, delegados e investigadores.
Que me diziam que para seguir essa carreira, iniciada no Direito, teria que estudar muito.
Para mim não seria problema afinal, eu amo estudar e sempre amei.
Nunca fui o tipo de pessoa que ficava ali, com a cara enfiada nos livros.
Não precisava, eu entendia as matérias só de ouvir as suas explicações.
E as minhas notas na escola, da primeira série ao ensino médio, depois na universidade, mostravam que eu estava no meu ritmo e no caminho correto.
Eu lia sim, quando era para trabalho, mas nunca vi necessidade de chegar em casa, e ler o que eu já tinha escrito ao longo daquela aula.
Minha maior dificuldade sempre foi nas áreas de matemática e lingua inglesa.
Mas, sempre me esforcei para que a deficiência visual, me permitisse não ser obstáculo a superar esses desafios.
E deu certo, já que não vermelhei as notas nem nessas áreas.

Com o tempo passado e meu crescimento, o mito místico de fazer carreira no Direito foi desaparecendo da minha cabeça.
Ainda não tinha ao certo um plano do que fazer.
Tinham tantas possibilidades e eu pensava, tinha tempo para que pudesse escolher uma profissão, que se adequasse as minhas necessidades e as limitações físicas, por não enxergar.
O que aconteceu posterior a isto foi, que acabei me descobrindo num universo incrível da escrita.
Se era verdade que eu não era muito de ler, exceto para trabalho, escrever sempre foi o meu forte.
Eram trabalhos enormes, produções de texto que nunca ficavam com menos de 3 páginas.
O que chamou a atenção de meus professores, e o que me deu destaque ainda na transição do ensino primário para o fundamental 4ª para 5ª série, quando as produções se
transformaram em algo mais intenso.
Era muito comum durante o ensino fundamental, que eu terminasse a lição e enquanto esperava o resto da classe, começasse a escrever na máquina de Braille.
Livros, textos, qualquer coisa que a minha mente me mostrasse.

Já aos 14 anos de idade, recebi de uma professora, Cíntia, a informação de que haveria um concurso de poesias para deficientes visuais, feito pela Unimed.
Ela me deu a ideia de participar porque eu escrevia muito bem, segundo suas palavras.
Nunca tinha feito poesias e confesso que isso me assustou um pouco.
Mesmo assim fui pesquisar sobre o concurso, fui ver seu tema e como me inscrever.
Eram duas etapas, categoria regional, feito pela Unimed de Ribeirão Preto, vizinha a Franca onde eu morava.
E a outra Estadual, em São Paulo.

Depois de muito pensar, escrever a poesia em Braille e pedir que minha mãe a transcrevesse, me inscrevi.
Enviei para Ribeirão com minha documentação e pronto, estava inscrito no concurso.
Mas as semanas passaram, os meses passaram, e eu até esqueci do concurso.
Até receber uma carta em casa, informando que, minha poesia havia sido selecionada para concorrer com as 1500 melhores poesias do estado, fui para a classificatória estadual
do concurso.
Onde o venci em primeiro lugar.
Então eram duas vitórias, na categoria regional e estadual.
O que me fez atentar para as poesias e nunca mais parar de escrevê-las.
E o que me fez entender que aquilo, era uma área que eu desejava muito explorar.

Durante minha ida a Ribeirão Preto, conheci os estúdios da TV Club, onde foi entregue a premiação regional em um programa na época chamado de Club Verdade.
Um jornal televisivo, apresentado pelo Jornalista José Wilson Tony.
As câmeras, os bastidores, ver Tony na bancada do jornal, simplesmente me hipnotizaram.
Passei a acompanhar o programa todos os dias, e a trajetória de Wilson Tony.
Costumo dizer que ele foi meu primeiro mentor, como Jornalista.
Depois passei a prestar mais atenção nas notícias locais de Franca, onde morava.
Na rádio Difusora, no Jornal Comercio da Franca, o local da cidade.
Eu estava decidido e sabia o que queria para o meu futuro, era aquilo, era ser Jornalista.
Tive que conhecer algumas pessoas para que eu entrasse de fato no mundo do Jornalismo, e visse a fundo como era.
E tive que acompanhar mais de perto, as carreiras de alguns jornalistas na cidade.
Ao contrário do que pensavam, não queria o jornalismo televisivo ou de rádio, eu queria o escrito.
Tony iniciou em mim a vontade de ser Jornalista, e depois que ele faleceu meses depois de eu o conhecer, por conta de um tumor no cérebro, essa vontade só cresceu.
Depois vieram outros bons jornalistas escritores, que me deram mais vontade de querer seguir esta área.
Na época, mentores que me fizeram escolher.
Por isso um belo dia disse a meu professor de informática, que queria aprender a montar um site.
O desafio foi fazer a página e ele me ensinou, com calma e paciência.
No dia 7 de julho, o ]]Site estava no ar, com o nome de Onnekalel.
Colocaria nele notícias importantes de Franca, região, do Brasil.
E colocaria livros e poesias que eu eventualmente viesse a escrever.
Como estava no começo, o site era algo bem amador e muito diferente do que se ve hoje.
Mesmo assim eu consegui fazer com que as pessoas acessassem.
Minha saldosa amiga Helen Patrícia, recém-formada em jornalismo, conheceu a página.
E me disse, “Vamos transforma-lo numa revista digital semanal”.
A ideia de Helen deu certo e montamos nossa primeira equipe, mas o site não tinha qualquer renda.
Estava num servidor público, e eu tinha só 16 anos de idade.

O tempo foi passando, eu ingressei na Universidade. Me lembro de marcar na opção do curso Jornalismo, e na segunda opção, Jornalismo.
Não havia outra coisa que eu quisesse fazer, além de ser Jornalista.
O site foi crescendo, os acessos aumentando, e 2 anos depois, ocorreu a queda de um avião no Brasil da companhia Air France.
Aquela queda mudou minha vida jornalística.
Eu descobri como correr atrás de uma Pauta, e como era importante passar para as pessoas informações precisas.
Com a ajuda de Helen e de outros membros da equipe, fomos um dos primeiros a divulgar a lista completa de passageiros abatidos na tragédia.
O site que era semanal, naquela semana se tornou diário para que pudéssemos trazer todas as informações as pessoas.
Os acessos não eram mais suportados e precisei transferi-lo para um servidor particular, e pagar por seu funcionamento.
Foi assim que comecei um projeto que evoluiu ao longo dos anos, me permitiu fazer muitas coisas, e me trouxe aqui.
13 anos depois, cá estou, Jornalista.
E se hoje eu tivesse de começar tudo de novo, faria exatamente as mesmas escolhas e sem que mudasse qualquer ponto.
Ser Jornalista é o que me ajuda a respirar, entre outras coisas, e é uma das minhas principais paixões.
Eu escolhi o Jornalismo para ser minha profissão, e se pudesse escolher de novo seria você Jornalismo, nessa e em todas as minhas outras vidas.